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46ª Apresentação de Canto Entoado e Dança de Leques e Espadas

Muita gente na comunidade nikkey desconhece o que seja Shiguin e Shibu. Shiguin se escreve, em kanji, dessa forma: [詩吟]. O primeiro kanji, lê-se shi e significa poema; o segundo, guin, que significa entoar. Assim, Shiguin significa: entoar poemas. Shibu se escreve [詩舞], sendo que o segundo kanji, que se lê bu, significa bailado. E, portanto, Shibu é “Bailado de Poemas”. Completando, ken escreve-se assim [], e significa espada. Dessa forma, Kenbu significa “Bailado de Espadas”.

Foi apenas uma introdução para poder discorrer sobre a 46ª Apresentação de Guinken Shibu Taikai, ou Canto Entoado e Dança de Leques e Espadas, que aconteceu no último dia 7 de Setembro. Essas apresentações acontecem todos os anos, em São Paulo, no dia da Independência do Brasil. Isso, há 46 anos! Um legado impressionante trazido ao Brasil por nossos antepassados, para preservar, aqui, a arte com tradição de mais de 1300 anos no Japão.

Nesse dia, em que o evento se iniciou às 10h00 e se encerrou às 15h30, com uma hora de intervalo para almoço, foram apresentadas 71 peças. A mais jovem a se apresentar foi Kanro Kubo, japonesa de 16 anos, filha de monja budista, que dançou “Shizuka Gozen”, uma peça da era de Guenji e Heike dos anos 1200. Ela foi acompanhada de um poema entoado pela professora Kazuyo Morishita.

A mais idosa a se apresentar foi Itsuko Kato, professora de Dança e Canto, de 92 anos, que entoou o poema “Kodama”, de Ishikawa Takuboku.

Os poemas, em geral, são difíceis de entender, mesmo para os japoneses que dominam a língua, por isso requerem muita interpretação, que geralmente acompanha esses versos. Como se trata de poemas de autoria de poetas famosos e que descrevem passagens épicas notáveis e históricas, os apreciadores acompanham as apresentações com muita emoção.

O tema central desse ano foi “150 Anos da Restauração Meiji – 1868 ~ 2018”. Quem acompanha aos domingos, a atual novela histórica da NHK do Japão – sobre Saigo Takamori (Segodon), personagem do filme “O Último Samurai”, deve ter relembrado os Byakkotai, famoso episódio ocorrido em 1868, episódio, esse, em que jovens de 16 anos se sacrificaram em ato derradeiro ao ver o Castelo Tsuruga de Aizu Wakamatsu, atual Fukushima, bombardeado e em chamas.

Outro poema desse período e que foi apresentado foi “Shiroyama” descrevendo a morte do herói Saigo Takamori na guerra Sei-nan, que foi entoado pelo professor Motohiro Sato.

Temos, em São Paulo, excelentes praticantes de Shibu e Kenbu como o conhecido carateca, faixa preta 5º dan, Akira Saito e Luíz Kobayashi, mas também praticantes não descendentes, como Gustavo Shodô, Christian Nastari e Fernando Gouveia, com alto nível de domínio dessa arte. Acho que fariam sucesso se apresentassem no Japão.

Acho importante a preservação da prática dessas artes. No diário do meu falecido pai consta que ele entoou um Shiguin no navio Arizona-maru, quando veio como imigrante para o Brasil, na festa de travessia da linha do Equador. Ele tinha 19 anos e veio só no ano de 1934. Eu pratico Shiguin por achar que é uma forma de prestar homenagem aos nossos ancestrais, entendendo de alguma forma, a vida que eles viveram, a história deles e compreender um pouco mais o Japão.

Capa do livro-programa

Hidemitsu Miyamura, presidente da Guinken Shibudo do Brasil, faz a abertura do evento

Público presente

Os dançarinos de cima, de Kenbu, são, da direita, Gustavo Shodo (nome artístico) e da esquerda, Fernando Gouveia, praticantes há vinte anos

Acima, à direita, é Itsuko Kato, de 86 anos, entoando shingui. É professora e formadora de excelentes praticantes de Kenbu .

Acima, à esquerda é Bifú Hori, apresentando Kayouguin, Ganpekino Haha. É praticante há 30 anos e foi elogiada por mestres no Japão.

Acima, à esquerda, Karina Andelocci, praticante há apenas dois anos, interpretou Fujisan, um clássico de Ishikawa Jyozan que evoca as virtudes do Monte Fuji para os japoneses e depois Oboro Zukiyo de 1914.

Nas fotos abaixo, a dançarina do meio é Kanro Kubo, japonesa de 16 anos, filha da monja budista do Nishi Honganji (Praça da Árvore SP); a da esquerda, Aiko Suzuki, de São José dos Campos; e, a da direita é Tsubaki Jifu, de Belém do Pará. As duas já no nível de mestres.

Akira Saito, campeão mundial de karatê, 5º dan, e um dos melhores praticantes de Kenbu, Shibu e Karatê-mai

Tsubaki Jifu. Veio de Belém do Pará e é umas melhores dançarinas. Está difundindo essa arte na Amazônia

Kazuyo Morishita, presidente da Shoko-ryu Guinkenshibudo do Brasil, fazendo o encerramento do evento. Versátil também em Shodo (caligrafia), grau máximo.

Confraternização ao final do evento

 

 


Por Hidemitsu Miyamura,
Engenheiro, presidente da União Cultural Guinken Shibudo do Brasil,
autor de livros, escreve artigos e matérias a jornais da comunidade.
Atualmente, realiza palestras sobre História e Cultura do Japão.
(fotos: Silvio Sano)

 

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Publicado em: 12 de setembro de 2018

Categoria: Associações, Cultura, Eventos, Música e Artes, Notícias, Notícias da Comunidade

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